domingo, 18 de novembro de 2007

Um Conto de Kaefe em ArteLivre Amigos e Poetas


Conto Prosaico ou Epitáfio dos Dias

Autor: Kaefe





O banco de concreto da parada de ônibus, mais conhecido como “esquenta-cú”, estava vazio. Os homens preferiam arriscar-se ao sol, esse também de cognome histriônico, “esquenta-juízo”. Agrupavam-se dois numa réstia linha de sombra.

Regurgitando Samuel Johnson, quando dois piauienses se encontram suas primeiras palavras versam sobre a intensidade do calor. E foi assim que aos poucos, em Vamos Ver o Sol, as pessoas juntaram-se em torno da parada.

- Que dia hoje, hein? Calor insuportável.

- Nem me diga.

- Será que se tem condição de se chegar limpo no trabalho?

- Olha pra mim também, estou suando feito porco.

- Eu nem me preocupo com isso, tomo banho só no trabalho.

- Arre-égua, dia abafado. O perfume ta saindo todinho.

- É aqueles perfume de revista? Te falei mulher que não prestam

- A senhora quer um pouco de sombra?

- E vai ficar ainda mais quente. Agora é que é Agosto.

- Se quer um bom conselho, faça como eu: leve o perfume na bolsa.

- Boa tarde, o ônibus ainda não passou? Calor infernal!

- Nem sinal.

- Deve tá atrasado, esse pessoal não ta nem aí se a gente tem horário.

- Boa tarde.

- Tarde.

- Olha ali, já vem. Sombra pra todos.

O ônibus, sujo de barro, inclinado pela tortuosidade da rua dobrou a esquina e vem em ritmo forte. Ouve-se o esforço do motor.

Não é preciso dar sinal, em Vamos Ver o Sol essa é a única linha, logo qualquer pessoa na parada está a espera do mesmo ônibus.

Um e 60 dum, Um e 60 doutro, um passe doutro, Um e 60 dum, um passe doutro, um passe doutro.

O sol bombardeia em cheio os assentos da esquerda. Todos se sentam na direita. O motorista segue.

Clemente, um homem pede para que o ônibus espere, correndo sob um sol inclemente. Os passageiros é que alertam o motorista, este para.

- Se eu perdesse este não chegava mais.

O motorista apenas assente com a cabeça enquanto Ciço entra no ônibus. Um e 60. Ca-tra-ka! Senta na direita, aos fundos.

Ciço vai como os outros, calados, absortos. Antes desses sete passageiros entrarem, já vinham dentro do ônibus uma senhora com duas crianças. Mesmo insistindo, uma das crianças decidiu ficar sentada em uma das cadeiras da esquerda, paralela a da senhora e do outro menino. Ciço observava isso e imaginava os motivos. Sua cabeça quente não atinou com verdade.

Recostado no banco, inclina a cabeça para o ombro e a sustem na janela.

As duas mulheres começam a conversar animadamente sobre Gustavo, “um nego feio, mas bom prum amasso”.A senhora observava os meninos, mas parecia interessada na conversa. Esperava um assunto mais genérico ou um silêncio propicio pra perguntar se elas sabem quem morreu.

- Quem?

- Vocês conheceram o senhor Jucá, da quitanda? Então. Vocês sabiam também que o filho dele é maconheiro, né? Matou o próprio pai...

Agora os outros homens entram na conversa.

Ciço não. Ciço na verdade não se interessava por conversas de nenhum tipo, não quando estava dentro do ônibus. Gostava de escutar. Confidências, brigas, não interessa o que. E observava também. Muito antes, na adolescência, esperava por mulheres bonitas que entrassem, nunca entraram. Agora se entretinha com as duas crianças cochichando.

Vão arrumadinhos, cabelos penteados, tênis, calças jeans e camisa da Disney.

- Toma essa, diz um dos meninos fazendo um gesto com as mãos.

O gesto interessou a Ciço. O garoto postara as mãos em concha e empurrava lentamente um raio de sol. Cruzando miúdo o ônibus, o raio de sol pára nas mãos do outro menino. Esse olha com malícia para o outro e rebate o raio de sol que volta para as mãos do primeiro menino. O sol não parecia queimar aquelas mãozinhas, foi o que Ciço observou enquanto continuavam em silencio a brincadeira.

Vai... volta... o ônibus pára. Entram mais passageiros. O garoto parece perceber o risco que corre e faz como quem protege um segredo entre as mãos, escondendo o raio de sol. Esperam as pessoas passarem e sentarem. O ônibus vai. O raio vem.

Com o rabo do olho Ciço é notado por um dos meninos. Todos param, Ciço de olhar, os garotos de brincarem.

Os garotos novamente cochicham, com o dedo apontam Ciço que volta a prestar atenção.

- Oh, diz um dos garotos pra Ciço e com um gesto de mãos passa o raio de sol para o outro. Este, com o cuidado de quem carrega água nas mãos, leva o raio de sol a boca. Mostrando os dentes, faz careta a Ciço.

Um solavanco e o raio de sol desprende-se dos dentes do garoto e segue lentamente a Ciço. É quente e guarda em seu interior pontinhos minúsculos. Aquilo era bonito e Ciço, homem velho, nunca tinha visto. Os garotos o olham com curiosidade. Percebendo e suspeitando que um intruso na brincadeira não seria bem vindo, devolve o raio, mas impinge um pouco mais de força do que o necessário. O garoto da esquerda prepara-se para segurá-la, mas o raio passa direto por entre suas mãos, bate na janela, rebate no teto do ônibus, desce ao chão e tudo fica negro.

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