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segunda-feira, 19 de novembro de 2007

ArteLivreCrítica por Jaldes Menezes




Chega Junto – Show de Adeildo Vieira

Diário de Bordo

(Adeildo Vieira & Águia Mendes)

Sou africano do Brasil, sou senegalês

Um Savimbicontra o império português

Já fui o mar, já fui a vela, fui a lei

Eu sou tantos ai-ai-ai quantos nem sei

Já fui escravo e já fui rei

Fui Camões, Vasco da Gama, fui vocês

Que muito além de Portugal, uma certa vez

Em mar, em terra, em sonho e em ilusão

Achava que o mundo era um pequeno grão

Que cabia na minha mão

Mas o mundo era grande, era grande demais

Não era do rei nem de Cabral

Nem a África, as velas e os cascos das caravelas de Portugal

Eu pensei que o mundo era só de amigos

Tão somente de amigos e nada mais

Não era do Ocidente nem do Oriente

O mundo éramos todos nós

O Show por Jaldes Reis Meneses



Antes de comentar o show de Adeildo Vieira (Chega Junto), duas palavras sobre o ambiente, o Teatro Santa Rosa superlotado, no auditório e nos camarotes (terça-feira, 06/11), para assistir ao vivo músicos paraibanos.

A primeira palavra. Como é belo o Teatro Santa Rosa, um salão inteiro recoberto de pinho de Riga e aquele palco italiano mágicos, de tantas histórias. O Teatro parece uma nave, todas as vistas convergem para o fundo do palco, arquitetura pensada pelos italianos no começo da modernidade, com o fito de exibir a ópera. Reparem que não se trata mais da estrutura da “agora” grega nem o círculo de inspiração medieval do “Globe Theatre” shakespeariano, onde havia um envolvimento do espectador de tipo mais direto, corporal, mas de algo diverso. Na era burguesa, como gostavam de escrever todos os grandes intelectuais e estetas do começo de século XX, a catarse fixou-se em definitivo na figura do artista individual. A segunda. Comentar um espetáculo em Teatro parece-me a mais interessante das atividades críticas, pois assim me invisto também das atividades de um historiador. O teatro é mortal – nunca mais haverá a iluminada noite de 6 de novembro de 2007. Todo apagar das luzes é definitivo. Amanhã será outro dia.

Qual a relação do longo prelúdio sobre o Teatro Santa Rosa a atividade do crítico como historiador com o show “Chega Junto” do compositor Adeildo Vieira?

Para mim, escutando atentamente o único disco lançado na praça por Adeildo (Diário de Bordo, 2004), alicerce, junto com as canções inéditas de um futuro CD (em gravação), do show atual, creio ter localizado uma matriz, fonte de ironia permanente, quase um fio condutor que dá o conceito do disco: a abordagem reiterada de uma espécie de tensão entre palco e platéia, entre artista e público, ou, melhor dizendo, entre o artista e certo tipo de público incapaz de refletir, pois o abjurado (e ironizado), na verdade, é o mercado da cultura de massas e seu séqüito de imposturas. Obviamente, a música do compositor nascido em Itabaiana, formado nas oficinas do Jaguaribe Carne e do Musiclube, comporta outras dimensões, mas no meio da versatilidade (sambas de andamento sofisticado, blues à lá Suely Costa, fados primorosos), encontro ao mesmo tempo esta tensão com o público como procedimento.

Deve parecer desatino escrever a propósito de uma espécie de estranhamento palco-platéia na música de Adeildo Vieira, uma pessoa simpática, alto astral, repleta de amigos. “Quem vê cara não vê coração” (verso de Cara Cardíaca, canção de abertura de “Diário de Bordo”). Ele encontrou uma forma estética interessante de absorver os impasses cotidianos de um compositor popular, uma figura da alegria e da tragédia (Noel Rosa, por exemplo). A metodologia é a seguinte: justapor ritmos dançantes (salsa, reggue, coco de roda, etc.) com letras de efeito inverso, mais mórbidos (“mas hoje, como sempre, se eu gritar que/ vou pular desse edifício/ o espetáculo recomenda o pulo”, “Ok, Você Venceu”). O efeito do estranhamento nos incita a refletir, mais ou menos na linha da subseqüente mensagem: é possível ao mesmo tempo pensar e dançar. Pensar e dançar ao mesmo tempo significa celebrar a vida, alterando a rota de expiação da catarse para um sentido de alegria consciente. Dessa maneira, os ritmos latinos e mesmo o reggue (metamorfoseado no Brasil do protesto vigoroso de Bob Marley a um fundo sonoro de letras adolescentes e infantis) ganham densidade poética.

Quem esteve no show sentiu-se contagiado momentaneamente por um sentimento de irmandade e compartilhamento. Começou quando Adeildo trouxe ao palco para cantar com ele parceiros de trocas musicais (Dida Vieira, Gláucia Lima, Débora Vieira, Escurinho, Eleonora Falcone, entre outros), e terminou numa espécie de apoteose, com o público cantando de cor “Amorélio” (é bonito ver as pessoas sabendo de cor a letra de uma canção que não toca no rádio) e aplaudindo de pé. No fundo, se pensarmos em utopia, o show de Adeildo Vieira propõe uma mensagem bem singela: a transmutação do público em amigos, pois neste grau de intimidade a catarse abandona o endereço fixo do artista, sendo redistribuída entre todos nós. O poeta Águia Mendes, autor da letra de “Diário de Bordo”, fez a síntese poética do que afirmo nos seguintes bem construídos versos, cantados nos show – “eu pensei que o mundo era só de amigos/ tão somente de amigos e nada mais/ não era do Ocidente nem do Oriente/ o mundo éramos todos nós”.

Para não dizer que apenas falei das flores, senti falta no repertório do show da música que mais gosto de Adeildo: a salsa “Cara de Anjo”, interpretada no disco “Diário de Bordo” num bem urdido dueto com Totonho. Melhor pensado, foi bom “Cara de Anjo” ter ficado de fora, porquanto fatalmente despertaria comparações entre o banho de interpretação de Totonho e quem o substituísse no palco. Outra coisa: para mim, algumas canções mais rítmicas como que pediam um naipe de metais, certamente cortado por falta de recursos financeiros. Valeu.

Notas:

Teatro Santa Rosa - João Pessoa – Paraíba

Adeildo Vieira, Totonho, Dida Vieira, Gláucia Lima, Débora Vieira, Escurinho,

são Artistas Paraibanos – compositores, Cantores, Poetas,Músicos.

Águia Mendes é Poeta e parceiro de Adeildo Vieira

Jaldes Reis de Meneses.

Professor dos Programas de Pós-Graduação em História e Serviço Social (UFPB).

e-mail: jaldesm@uol.com.br

coluna: www.wscom.com.br

blog: http://www.jaldes-campodeensaio.blogspot.com/

segunda-feira, 22 de outubro de 2007

ArteLivreCrítica por Jaldes Menezes


Tropa de Elite




O SUCESSO do filme Tropa de Elite começou como contravenção: a distribuição e venda no mercado negro de milhões de cópias piratas, cada uma delas sintoma de uma doença mais grave: o aumento exponencial da ilegalidade no Brasil, a nossa definitiva emersão em um capitalismo de tipo mafioso, nos melhores moldes russos, mexicanos e colombianos.

Encontramo-nos no limiar da consolidação de uma estrutura de longo prazo: na vigência de deterioração de um Estado Democrático de Direito, passa a valer a cruel realidade de um Estado pré-Hobbesiano, carregado de “zonas liberadas” a soldo de tiranetes locais. Triste sina: atravessamos o umbral civilizatório da coerção legítima, do contrato social que instituiu aquilo que Max Weber (autor clássico da sociologia alemã) intitulava de “monopólio da violência legal” pelo Estado, beirando assim o abismo da barbárie. Nos comparte uma vida cotidiana que mais parece um inferno, principalmente nas periferias das grandes cidades, onde, na ausência de políticas públicas universais e permanentes (o bolsa-família tem a evanescência de uma moeda), o espaço dos serviços tem sido preenchido pelas igrejas evangélicas, as milícias paramilitares e a mais antiga e conhecida das redes alternativas de poder implantadas no Brasil: o jogo do bicho e depois o tráfico de drogas.

Porém, há um lenitivo: quando a situação extrapola dos limites tacitamente negociados entre o poder legal (os executivos estaduais) e o poder real das “zonas liberadas” (quando é assassinado, por exemplo, um jornalista); nesta circunstância, entra em ação a força bruta, total, dissuasória, de uma tropa de choque. Não por acaso, os acontecimentos mostrados em Tropa de Elite acontecem nos dias que antecedem a uma visita do Papa João Paulo II ao Rio de Janeiro, em 1997. O Estado precisava de uma calmaria.

A ciência social contemporânea, especialmente o italiano Giorgio Agamben, a partir de um mote proposto em 1940 por Walter Benjamin em Sobre o conceito de história – “o estado de exceção em que vivemos é na verdade regra geral” – vem tematizando a respeito da formação de um “Estado de exceção”. Trata-se de uma forma política na qual o Estado abre mão de muita coisa, menos de duas: o simbolismo da corte e o poder soberano de agir. E age sem pestanejar. A ação militar aparece sob a forma de uma ocupação profilática. Contudo, sem inverter as linhas estruturais da realidade social sob a qual se intervém. Simplesmente, exerce-se um controle. O Iraque sob a ocupação americana transformou-se na melhor ilustração mundial deste Estado de exceção, mas, no Brasil, pode-se afirmar, longe de exagero, que a vida de milhões também tem sido afligida por uma constelação política semelhante.

Aqui está uma novidade. Em tempos recentes, mesmo no Brasil, o exercício da política, da parte das classes populares, conseguia fazer brotar uma expectativa de melhores dias que, embora longe de pleno êxito, ao menos conseguia impor um solo de negociação entre as partes do conflito. Este dispositivo funcionou, bem ou mal, durante toda a “era Vargas”, teve um eclipse na época da ditadura, mas retornou força no processo da constituinte. Hoje, tais esperanças faleceram, criando uma situação crítica. A esperança de melhores dias se afastou da política, embora, como compensação, reste à crença no mecanismo econômico desatado pelas liberdades individuais. Enfim, neste vazio das expectativas emancipatórias, a política transformou-se numa forma autista, os mecanismos de participação popular foram profissionalizados (o orçamento participativo, a ficar somente em um exemplo, presentemente, transformou-se numa mera tecnologia de poder).

Mais além das classes populares, o estágio de irresolução dos conflitos e aumento vertiginoso da violência afeta a todas demais classes da sociedade (principalmente a classe média), levando à exasperação. Causa espécie em certos críticos de cinema que o Capitão Nascimento – protagonista de Tropa de Elite – seja aplaudido de pé ao término das sessões ou gritado em estádios de futebol. Qual rigorosamente a novidade? O caldo de cultura de transformação do Capitão Nascimento em herói estava fervido a um bom tempo.

Pois bem, Tropa de Elite possui um mérito inegável, ao fazer emergir o complexo de questões do Brasil contemporâneo, a cada dia que passa uma sociedade cínica e insalubre. Apesar disso, no mesmo movimento, contribui com o aumento da exasperação, ao entregar a narrativa às confissões do Capitão Nascimento, produzindo um resultado funesto distante da ingenuidade. Quem se responsabiliza pelas escolhas morais da narrativa é um personagem de ficção, que passa a ditar sem contraponto sua concepção de mundo bipolar e simplória: para ele, os principais responsáveis pela escalada das drogas na sociedade são os filhinhos do papai da classe média; a ação das ONGs na favela acoberta o crime; e, por último, embora desagradável, a tortura pode ser imprescindível em determinadas circunstâncias.

Decerto, a escolha do diretor José Padilha e dos roteiristas (junto com Padilha, o premiado Bráulio Mantovani, de Cidade de Deus, e Rodrigo Pimentel, ex-capitão do BOPE) é de fundamental importância para a compreensão dos cordéis internos do filme. Nos debates polêmicos sobre Tropa de Elite tem ocorrido uma situação no mínimo inusitada, com base decisão de entrega da narrativa do filme a um “eu”, os autores como que se desresponsabilizam dos resultados subseqüentes da ação. Põe tudo no cartório do Capitão Nascimento, coitado. Seria como se Machado de Assis nada tivesse a ver com Brás Cubas. Bem compreendido: obviamente, existe autonomia entre autor e personagem – talvez quando mais autônomo do autor mais rico em determinações o personagem. Não é esta a questão em exame, mas outra mais simples. Invocamos, digamos assim, a uma espécie de “ética da responsabilidade” na qual, em última instância, cabe ao criador um pronunciamento sobre a criatura.

Neste sentido, consentir a narrativa aos cuidados do Capitão Nascimento (no jargão dos bandidos, um bicho-solto que tortura e arrebenta) tem se constituído um salvo-conduto da direção e dos roteiristas, um tanto acuados pelo debate sobre o filme: acaso cobrado pela “glamorização” da violência, o diretor, os roteiristas e mesmo os atores (Wagner Moura tem dado várias entrevistas a respeito), via de regra, afirmam que o mostrado na tela não se trata do ponto de vista pessoal.

Um blefe duplo: em primeiro lugar, pouco nos interessa a opinião pessoal de José Padilha ou Wagner Moura, mas as opções dos criadores, e em segundo, o argumento apresenta uma manha mais cavilosa – a tentativa furada de certo realismo de corte conformista em apresentar a versão da saga narrada pelo protagonista como uma espécie de “espelho” da realidade.

Anteriormente, em Cidade de deus (filme do qual indubitavelmente Tropa de Elite é tributário) aconteceu algo parecido com a figura do narrador. No filme, o diretor Fernando Meireles e o roteirista Bráulio Mantovani pinçaram um personagem relativamente discreto do livro originário do filme – Buscapé –, e o colocou no proscênio, possibilitando “amarrar” o fluxo da ação. O filme ganhou dinamismo. Mas produziu-se um efeito contrário ao livro homônimo de Paulo Lins, cuja estrutura narrativa, baseada em Fogo morto, de José Lins do Rego, assentava na história de três bandidos em épocas subseqüentes (anos 60, 70 e 80), de maneira a contar a evolução do tráfico no circuito fechado da favela. Focado inteiro no circuito fechado da favela, no romance, os protagonistas, todos bandidos, pereceram numa espécie de guerra maldita. Havia algo de instrutivo nesta tragédia absoluta, que fazia pensar: a simulação da impossibilidade de porta de saída no mundo darwnista do tráfico.

No caso do cinema, arte de massas, a dura mensagem foi amaciada: Buscapé conseguiu subir na vida como fotógrafo, realizar um final feliz. A mensagem, no fundo, conformista, é a seguinte: mesmo na barbárie, as saídas individuais funcionam (possíveis, é claro, sempre o são). Quem diria... Frank Capra (clássico diretor do cinema americano famoso pela fabulação moral e os finais felizes) no tráfico de drogas da favela... Por isso, o livro Paulo Lins é melhor que o filme de Fernando Meireles.

Em certo sentido, feito Cidade de Deus, Tropa de Elite também tem um “final feliz”. O Capitão Nascimento consegue fazer o sucessor, o jovem aspirante Matias, que passa no teste de todas as provas animalescas do BOPE (dormir ao relento, comer como um porco, torturar, matar a sangue frio, etc.). O tiro em frente para a câmara, nos últimos instantes da fita, celebra a este final feliz, sintetizando todo o séqüito de violências pesadas do filme. Doravante, os expectadores podem dormir sossegados e tranqüilos – o Capitão Nascimento recolher-se-á aos dilemas privados, mas encontrou um sucessor à altura.

Jaldes Reis de Meneses.

Professor dos Programas de Pós-Graduação em História e Serviço Social (UFPB).

e-mail: jaldesm@uol.com.br.

Blog: http://jaldes-campodeensaio.blogspot.com

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