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quarta-feira, 28 de novembro de 2007

Poesia nas Canções







Untoquepornada

(Augusto Silveira/Binho)

Não é o verso

O olho avesso da fome

Do moleque travesso

Do moleque travesso

É o não-verso

Meninez volátil

No dedo chamuscado

Da viagem

No sexo de aluguel

Do mênstruo profano dos anjos

Debaixo de um céu

De coca e cola

Meninos da sete

No centro da cidade

Com seu fulgazes

Sorrisos pálidos

Sempre armando um bote

Por um nada de felicidade

O que pedem suas orações

Os curumins pirados

De tamanho solidown

Um arrastão de idéias poéticas

Não pode salvar

A gangue dos meninos do Brasil

A que senhor servir

Num país de cegos

É o não-verso

O poema de amor disperso

No lixo das ruas

Onde trocamos tiros

terça-feira, 27 de novembro de 2007

Poesia nas Canções


O Cisco

(Baaribu Nonato)

Tanto já foi dito nas canções

Sobre amor, felicidade, beleza

Alegria, tristeza, política, ecologia

Qualidade, costumes, sentimentos e coisas.

Volto-me então para falar de um cisco

Que girava no ar feito um disco

Talvez por isso

Meu pensamento num trisco

Caiu num abismo

Dentro dele

Um infinito

Por fora não visto, a perguntar:

Como fez-se mundo, na menor coisa existente?

Daí pude saber, tudo cria-se na mente

Entre tempo e espaço

A dimensão terceira

Apresenta o universo

Como se tivesse beiras

Na milionésima quinta dimensão

Vejo eu fundo num cisco

Incontáveis vidas outras

Engolindo um quando pisco

Deus comigo viajando

É maior que tudo isso

Por incrível que pareça

Também coube neste cisco.

Lá num tempo vi ainda

Nada começa ou finda

Energia e consciência

Em forma de gente

Indigna-me

O desprezo feito a olho nu

Sobre aquilo que julgamos

Não ter valor algum

Tudo, tudo tem sentido

Aquilo que contém

É também contido.

Sem limite, sem tamanho

Fico mais compreensível

Fecho os olhos limitados

Abro a mente ilimitada

Feito asas, voa aberta

E cai se estiver fechada.

Deus ainda junto a mim

Ofertou-me três pedidos

Assim quando pousássemos

Todos fossem se cumprindo

Primeiro escolhi possuir o conhecimento de todo universo

Segundo, o poder para usar e mudar se eu bem quisesse

Pousamos numa clareira e cumpriu-se o que fora pedido

Fiz o terceiro que deixou-me como antes de ter entrado.

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

ArteLivreCrítica por Jaldes Menezes


Chega Junto – Show de Adeildo Vieira



Diário de Bordo

(Adeildo Vieira & Águia Mendes)

Sou africano do Brasil, sou senegalês

Um Savimbicontra o império português

Já fui o mar, já fui a vela, fui a lei

Eu sou tantos ai-ai-ai quantos nem sei

Já fui escravo e já fui rei

Fui Camões, Vasco da Gama, fui vocês

Que muito além de Portugal, uma certa vez

Em mar, em terra, em sonho e em ilusão

Achava que o mundo era um pequeno grão

Que cabia na minha mão

Mas o mundo era grande, era grande demais

Não era do rei nem de Cabral

Nem a África, as velas e os cascos das caravelas de Portugal

Eu pensei que o mundo era só de amigos

Tão somente de amigos e nada mais

Não era do Ocidente nem do Oriente

O mundo éramos todos nós

Antes de comentar o show de Adeildo Vieira (Chega Junto), duas palavras sobre o ambiente, o Teatro Santa Rosa superlotado, no auditório e nos camarotes (terça-feira, 06/11), para assistir ao vivo músicos paraibanos.

A primeira palavra. Como é belo o Teatro Santa Rosa, um salão inteiro recoberto de pinho de Riga e aquele palco italiano mágicos, de tantas histórias. O Teatro parece uma nave, todas as vistas convergem para o fundo do palco, arquitetura pensada pelos italianos no começo da modernidade, com o fito de exibir a ópera. Reparem que não se trata mais da estrutura da “agora” grega nem o círculo de inspiração medieval do “Globe Theatre” shakespeariano, onde havia um envolvimento do espectador de tipo mais direto, corporal, mas de algo diverso. Na era burguesa, como gostavam de escrever todos os grandes intelectuais e estetas do começo de século XX, a catarse fixou-se em definitivo na figura do artista individual. A segunda. Comentar um espetáculo em Teatro parece-me a mais interessante das atividades críticas, pois assim me invisto também das atividades de um historiador. O teatro é mortal – nunca mais haverá a iluminada noite de 6 de novembro de 2007. Todo apagar das luzes é definitivo. Amanhã será outro dia.

Qual a relação do longo prelúdio sobre o Teatro Santa Rosa a atividade do crítico como historiador com o show “Chega Junto” do compositor Adeildo Vieira?

Para mim, escutando atentamente o único disco lançado na praça por Adeildo (Diário de Bordo, 2004), alicerce, junto com as canções inéditas de um futuro CD (em gravação), do show atual, creio ter localizado uma matriz, fonte de ironia permanente, quase um fio condutor que dá o conceito do disco: a abordagem reiterada de uma espécie de tensão entre palco e platéia, entre artista e público, ou, melhor dizendo, entre o artista e certo tipo de público incapaz de refletir, pois o abjurado (e ironizado), na verdade, é o mercado da cultura de massas e seu séqüito de imposturas. Obviamente, a música do compositor nascido em Itabaiana, formado nas oficinas do Jaguaribe Carne e do Musiclube, comporta outras dimensões, mas no meio da versatilidade (sambas de andamento sofisticado, blues à lá Suely Costa, fados primorosos), encontro ao mesmo tempo esta tensão com o público como procedimento.

Deve parecer desatino escrever a propósito de uma espécie de estranhamento palco-platéia na música de Adeildo Vieira, uma pessoa simpática, alto astral, repleta de amigos. “Quem vê cara não vê coração” (verso de Cara Cardíaca, canção de abertura de “Diário de Bordo”). Ele encontrou uma forma estética interessante de absorver os impasses cotidianos de um compositor popular, uma figura da alegria e da tragédia (Noel Rosa, por exemplo). A metodologia é a seguinte: justapor ritmos dançantes (salsa, reggue, coco de roda, etc.) com letras de efeito inverso, mais mórbidos (“mas hoje, como sempre, se eu gritar que/ vou pular desse edifício/ o espetáculo recomenda o pulo”, “Ok, Você Venceu”). O efeito do estranhamento nos incita a refletir, mais ou menos na linha da subseqüente mensagem: é possível ao mesmo tempo pensar e dançar. Pensar e dançar ao mesmo tempo significa celebrar a vida, alterando a rota de expiação da catarse para um sentido de alegria consciente. Dessa maneira, os ritmos latinos e mesmo o reggue (metamorfoseado no Brasil do protesto vigoroso de Bob Marley a um fundo sonoro de letras adolescentes e infantis) ganham densidade poética.

Quem esteve no show sentiu-se contagiado momentaneamente por um sentimento de irmandade e compartilhamento. Começou quando Adeildo trouxe ao palco para cantar com ele parceiros de trocas musicais (Dida Vieira, Gláucia Lima, Débora Vieira, Escurinho, Eleonora Falcone, entre outros), e terminou numa espécie de apoteose, com o público cantando de cor “Amorélio” (é bonito ver as pessoas sabendo de cor a letra de uma canção que não toca no rádio) e aplaudindo de pé. No fundo, se pensarmos em utopia, o show de Adeildo Vieira propõe uma mensagem bem singela: a transmutação do público em amigos, pois neste grau de intimidade a catarse abandona o endereço fixo do artista, sendo redistribuída entre todos nós. O poeta Águia Mendes, autor da letra de “Diário de Bordo”, fez a síntese poética do que afirmo nos seguintes bem construídos versos, cantados nos show – “eu pensei que o mundo era só de amigos/ tão somente de amigos e nada mais/ não era do Ocidente nem do Oriente/ o mundo éramos todos nós”.

Para não dizer que apenas falei das flores, senti falta no repertório do show da música que mais gosto de Adeildo: a salsa “Cara de Anjo”, interpretada no disco “Diário de Bordo” num bem urdido dueto com Totonho. Melhor pensado, foi bom “Cara de Anjo” ter ficado de fora, porquanto fatalmente despertaria comparações entre o banho de interpretação de Totonho e quem o substituísse no palco. Outra coisa: para mim, algumas canções mais rítmicas como que pediam um naipe de metais, certamente cortado por falta de recursos financeiros. Valeu.



Nota de esclarecimento:

Teatro Santa Rosa - João Pessoa – Paraíba

Adeildo Vieira, Totonho, Dida Vieira, Gláucia Lima, Débora Vieira, Escurinho,

são Artistas Paraibanos – compositores, Cantores, Poetas,Músicos.

Águia Mendes é Poeta e parceiro de Adeildo Vieira


Jaldes Reis de Meneses.

Professor dos Programas de Pós-Graduação em História e Serviço Social (UFPB).

e-mail: jaldesm@uol.com.br

coluna: www.wscom.com.br

blog: http://www.jaldes-campodeensaio.blogspot.com/