Mostrando postagens com marcador Arte. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Arte. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Do Livro Poesia Velha - De Jaiel de Assis



6 – Um Índio sem olhos azuis


Olhei a cidade do México como olho as estrelas
De noite e de longe, como um “Pele Vermelha”.
Compreendo agora o que é o “Rio de Águas Vivas”
E a dor silenciosa de um ateu.
Uma gata que freqüenta minha casa sabe sair
Quando abro o portão.
Contínuo não acreditando em tua virtude
E quando leio os jornais também continuo não acreditando.
Sócrates gostaria de rir nas noites caribenhas
E de discutir futebol nas filas de além.
O mar voltou, a sua onda é dente de serra.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Do Livro Poesia Velha - De Jaiel de Assis



4 – Mira las flores


Uma mulher violentamente espancada
Preferiu não prestar queixas a policia.
Acordou cedo, foi à igreja, rezou e se confessou,
Fez todos os serviços da casa e a noite matou o marido.
Hoje vive no México, odeia violência!

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Do Livro Poesia Velha - De Jaiel de Assis




3 – Investigação criminal


Um outro dia olhei um pedaço de manga
Numa investigação criminal poeticamente conduzida,
O braço arrancado pelo corte firme do facão enferrujado
Já não estava ali, apodrecera.
A mente era abstrata, coisa de psicólogos,
A dor foi gravada num grito chamado prova 83.
Os advogados de defesa e acusação tomavam café e fumavam.
O seguro era de trezentos mil!A viúva chorava.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Do Livro - Poesia Velha De Jaiel de Assis

Barraco queimado - foto LCP

2 – Da Castanheira meu ponto de vista



Vejo a terra daqui de cima desta velha Castanheira,
A terra já não é redonda é arrendada.
Coronéis e políticos brincam algum tipo de ciranda,
A noite aparece com fitas azuis.
Olho na direção vermelha do rio
E novamente a terra não é redonda é arrendada.
Rendas de um luto quase azul, grito noturno de nenhum pássaro.
Meu bote voa por sobre dinamites.
Se acreditasse em tua virtude teria virado pó.

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Um Conto de Jaiel de Assis


Puta que pariu! Quase um conto de Natal!

O garotão malhado tinha quase dois metros de altura, uma tatuagem caveira que dava medo só de olhar, músculos de todos os lados, um bad boy da pesada.
Todo fim de semana estava naquele barzinho apavorando! Mexia com as mulheres, namoradas, casadas, dava tapa na cara dos homens, tomava cerveja e não pagava, mostrava o pau e xingava qualquer um.
Diziam que ele era parente de um político importante, um prefeito ou deputado, desses que se envolve em maracutaias e rouba o dinheiro publico, dinheiro do povo, era um protegido da banda podre do poder.
Por isso era aturado, a policia prendia, mas, o político parente soltava, diziam que tinha grana, pele fina, gente da alta.
Um dia apareceu um baixinho tocando violão e tomando cachaça naquele bar que o bad boy sempre freqüentava. O baixinho tocava, estava feliz, atendia a todos os pedidos daquelas músicas dos bares.
Toca Ronda, ele tocava, canta uma do Amado Batista, ele cantava e assim a turma bebia e se alegrava...
O bad boy entrou no bar naquela sexta-feira do jeito que ele sempre entrava como o rei do pedaço, querendo o olhar de todos, querendo ser amado.
Todos cantavam junto com o baixinho e nem olharam pra ele, nem repararam na sua tatuagem nova no braço esquerdo um dragão enorme cor de sangue.
Quando se deram conta o baixinho estava no chão, boca ensangüentada, violão jogado, pinga e cerveja derramada.
Quando olharam de novo ouviram um, dois, três tiros, o bad boy caído olhando sem acreditar para o baixinho... O primeiro tiro na perna direita, o outro na boca do dragão e o terceiro na bunda.
Olharam mais uma vez e o bad boy chorava, pedia perdão, se peidava, se mijou todo, aquele mijo de medo da morte.
O baixinho agora tinha guardado a pistola, uma 765, sacou uma coisa brilhante, uma faca peixeira, abriu a braguilha do cara e cortou o pau, depois com muita calma, como quem já fez o curso de inteligência emocional, arrancou os olhos azuis do bad boy e colocou num saco desses de pipoca junto com o pau que ele gostava de mostrar para as mulheres dos outros.
O Baixinho, olhando a turma um tanto quanto assombrada, mostrou o saco onde havia colocado pau e os culhões arrancados e pediu que mandassem para o político parente do bad boy de presente...
Pegou a viola, pagou a conta e desapareceu na noite...
Uma mulher ainda assustada gritou: “E ainda dizem que não existe justiça!”

segunda-feira, 15 de outubro de 2007

ArteLivreCrítica por Jaldes Menezes

Mário Quintana

Ao ler a revista EntreLivros de outubro (estampada com uma caricatura de Machado de Assis na capa), me despertou curiosidade uma enquete, organizada durante o mês de setembro pela editoria da revista, pela internet, com a seguinte pergunta: qual o grande poeta brasileiro do século XX? A reposta não deu outra: o gaúcho Mário Quintana. Em segundo lugar, pode-se dizer em empate técnico, veio o favorito da crítica, Carlos Drummond de Andrade, seguido de João Cabral de Melo Neto, Manuel Bandeira e Vinícius de Moraes. Minha lista pessoal seria mais ou menos esta, inclusive incluiria Vinicius, um poeta genial, especialmente em seus sonetos mais conhecidos. Apenas excluiria Mário Quintana. Não levo enquetes a sério, mas funcionam como sintoma: me ponho a pensar o que faz Quintana ser o favorito na preferência do público leitor de poesia, mesmo circunstancialmente. Também não vou ficar tirando onda, no Olimpio, dando uma de ridículo, falando que o público não entende de poesia. Nada disso. A César o que é de César: Quintana formou uma personalidade pública, solitária, irônica, corrosiva, lírica, etc. Ok. Possui méritos poéticos inegáveis. Porém, em contrapartida, posso listar pelo menos mais uns vinte ou trinta poetas brasileiros fundamentais do século XX (o grande século da poesia brasileira), desde os óbvios Jorge de Lima e Murilo Mendes, até uns mais esquecidos como Mario Faustino (“O homem e sua hora” é um livro fundamental da lírica brasileira, a comunidade de Mário Faustino no orkut tem apenas 14 pessoas, o que não deixa de ser curioso e valha a pena refletir: talvez nosso mais elaborado poeta e um dos nossos mais eruditos poetas seja um dos mais desconhecidos, com pérolas e pérolas a descobrir), e Paulo Mendes Campos (um grande poeta brasileiro esquecido, da estripe de Eliot quando acertava a mão mais conhecido como boêmio e cronista). Entre os vivos, aí esta Ferreira Gullar e seu “Poema Sujo”. Todos esses, poetas mais densos, em forma e conteúdo, do que Quintana. De onde vem a preferência por Quintana? Penso que se encontra em duas características coligadas de sua expressão poética, pela ordem: o ludismo e o coloquialismo, abrigados em uma visão de mundo cética. Feito uma criança crescida que, descrente do mundo, das ideologias, só pode brincar com ele, num jogo de cabra cega. Tudo isso em versos curtos, sensíveis, fáceis de guardar na memória. Chegamos ao segredo de Mário Quintana.

sábado, 13 de outubro de 2007

Do Livro A Arte das Canções de Jaiel de Assis


Tribos



Olhar a tribo
Com que olhos?
Chorar a lágrima sem ter cor!
Arder em fogo, em aço.
Viver e ser caçado,
Em plena flor.
Agora em tribos na cidade
Enfrentam, lutam, outra vez,
Contra carecas e leopardos,
Seus grupos tão armados,
O desemprego a lei.
Os seguranças nos lugares
Públicos
Não vacilam!
Atiram, atiram, atiram...
Nas tocaias, as milícias
Armadas,
Nas neo-senzalas,
Não vacilam!
Atiram, atiram, atiram...
Sou Negro, sou tão índio,
Latino, Nordestino,
Rasgo bandeiras, grito!
Chacina! Dor!

Do Livro A Arte das Canções de Jaiel de Assis


Criançar

Daqui pra lá de um lugar
Que eu mesmo não sei onde é,
Mas que vivi e aprendi
A criançar, correr, brincar,
Tocar, pular, viver...
Reaprender a ser feliz
E cirandar num trem,
No mar, na cor, na flor,
Desta cidade cheia de jardins,
Crianças, luz e muito amor.

quinta-feira, 11 de outubro de 2007

Do Livro Fragmentos da Nona Fragmentada de Jaiel de Assis

33 – Via Púbica



Ando a Esmo pela cidade,

Olhando vitrinas e moda.

Entro em uma loja de tecidos e examino,

Distraidamente, uma peça de seda.

Tão lilás, sua cor! Tão macia, sua pele!

Lembro rapidamente de você,

Ainda ontem estava em teus lençóis.

O cheiro da vida e o cheiro do amor,

Deixava na sala teu perfume misturado ao meu.

E eu me esfregando em teu corpo,

Percorrendo cada pedaço dessa via púbica,

Onde pingos prateados como a luz da lua,

São na verdade gotas de um suave vinho,

Escorrendo docemente em tua pele branca.

A seda em minhas mãos, a vendedora me olhando,

As imagens fluindo, meu coração, em fogo,

Me leva em rodopios nesta viagem virtual e rápida,

A um porto raso com barcos encalhados,

Te querendo a qualquer hora, em todo lugar,

Erguendo minha arma, me fazendo chover...

quarta-feira, 10 de outubro de 2007

Do livro Cirandas Eletrônicas de Jaiel de Assis


06 – ARTE FINA DO CORTE

Acabo de me levantar



Da cadeira vermelha da sala

Para sentado meio torto inclinado,

Noutra cadeira do Retro-Studioambiente,

Trabalhar em grandes potes de barro

A arte fina do corte.

Um nome me chega aos gritos!

Vejo-me agora sem parentes,

Sem amigos, flecha partida,

Atirada em direção ao nada.

Vários companheiros, eqüidistantes,

Esquadrinham meu lado sul/norte,

Na verdade não esquadrinham nada,

Meus pontos cardeais sem trafego,

Olhando o “Sinal Semafórico”,

De Ledo Ivo, de longe,

Querem jorrar poesia,

Como água morna.

A arte fina do corte

Brilha no sangue verde

Do Fantasma de Canterville, de Oscar Wilde.

E reunidos em canos plásticos,

O Sinal Semafórico, o Fantasma de Canterville

E meu cartão de visita,

Retomam o fragmento do branco no vazio.

Ainda sentado meio torto inclinado,

Olho a sala e a cadeira vermelha,

Lembro que amigos distantes se esquecem

E isso é normal, natural e vulgar.

Chamo de corte essa arte da esquecidade.

Vários nomes e rostos

Que antes bailavam no Ramo de Estrelas,

Ainda me chegam e minha amada

Pede para que não coloque

Nada furante no ouvida, use cotonete, amor!

Grita ela sem pedir licença,

Por dentro das frases e palavras cortadas.

Neste momento começo a beber cerveja,

Uma marca qualquer, das melhores talvez,

Ao mesmo tempo crianças famintas

Passeiam na praça.

Aqui contemplamos a arte fina do corte.

Lado direito da dor, o prazer!

Lado esquerdo da dor, o disfarce!

Com sapatilhas de seda,

Um político decadente se equilibra

Com gestos triunfantes,

Sobre o fio aberto da navalha.

Uma criança de rua,

Olhando a cena por dentro,

Rasga a seda, libera a arte fina do corte,

Sangrando os pés,

Pondo fim ao equilíbrio,

Do disfarce, do embuste.

Prazer e disfarce!

Junção dos diferentes lados da dor.

A decadência política apodrecendo,

Arroz, milho, café, escolas.

Uma faixa menstruada pelas cores do Brasil,

Avisa a todos do feriado nacional.

A crise aguda dos bancos,

Apendicite financeira crônica,

Dilacerou vísceras e apodreceu

Papéis, imóveis, bandeiras.

A arte fina do corte,

Resplandece como um olho azul cortado.

No oco da face, pelo olho retirado,

A dor, o sangue escorrendo.

Nas bandas do olho aberto,

Escorre o brilho, o azul se perde.

A imagem vídeo-rotativa,

Se esvaindo em vinhetas e clichês,

Agora por outro olhar,

Estanho, ano 3093.

Ano qualquer,

Tempo talvez,

Amar, esquecer, furar.

terça-feira, 9 de outubro de 2007

Do Livro Razão das Massa de Jaiel de Assis


15 – Noticias


Cris acredita que a primavera
Chegará um dia,
Com boas notícias da briga popular.


Ela espera para rever as flores
E encontrar o último beija-flor.


Na sua voz suave de menina,
Ela relembra as canções de guerra.
Cris acredita que sua faca-beijo
Pode vencer um duro coração.

E os seus dias passam pelas sombras,
E seu perfume fica pela terra,
E seu sorriso,
Como brincadeira,
Vai transformando esses dias de medo.

segunda-feira, 8 de outubro de 2007

ArteLivreCrítica por Jaldes Menezes



Hai-kai e Hai-quase (II)

Lau Siqueira

Esse hai-kai do poeta Lau Siqueira, muito bom, mais Alberto Caeiro que Álvaro de Campos, por isso mesmo é mais fiel ao conteúdo das tradições do hai-kai do que o de Alice Ruiz, demonstrando que se pode fazer bem feito das duas maneiras (Jaldes Reis de Meneses):

ruído d'água

no rio nascente

música dos peixes

Hai-kai e Hai-quase (III)

Recebo mais um hai-kai do poeta Lau Siqueira, também muito bom, embora possa ser um hai-quase. O poeta desdorda da forma fixa do hai-kai somente no último verso. A questão é a seguinte: temos uma forma ao nosso dispor e podemos trabalhá-la de duas maneiras, aceitando o desafio minimalista proposto pela forma fixa do hai-kai (dezessete silabas poéticas, 5, 7, 5) ou desbordar, chegando até um verso livre de tipo elíptico. Ambas são válidas. Por outro lado, forma fixa ou estilizada, sobra o principal: o que os versos efetivamente dizem ao mundo. No caso de Lau, seguindo a uma classificação puramente didática, o hai-kai anterior era mais “Alberto Caeiro” (pastoral) e o segundo é mais “Álvaro de Campos” (existencial, metafísico, moderno, etc.).

suicídio lento

na mobília da alma

os versos que invento

Hai-kai e kai-quase (IV)

A grande questão, no fundo é a seguinte: o que realmente importa não é, precisamente, a forma fixa, mas o que fazemos dela, um pouco parafraseando Sartre. Ou seja: a questão fundamental não é o que o hai-kai é, mas o que fazemos dele.

Tenho uma cisma com dois extremos: tanto o que se adequou pacificamente à forma fixa como o que desconhece a rica tradição da poética, a maneira pela qual as formas poéticas foram aparecendo e se impondo como tradição. Nos dias atuais, percebo que começam a aparecer, entre novos poetas e alguns já rodados, um conjunto de maneiras, algumas ricas e outras nem tanto, de lidar com a tradição e a inovação. São dois os extremos: quem se satisfaz com a tradição e quem a desconhece. Há um fundo comum entre as duas situações: a exaustão do discurso da vanguarda, que gerou uma saudável liberalização, mas ao mesmo tempo uma circunstancia de predomínio alternado tanto de formalismo como de vale tudo.

A propósito de um dos que se satisfaz com a tradição (prefiro não citar o nome, sorry): li recentemente em um jornal a opinião de um intelectual que respeito afirmando que o desafio do artista é regido principalmente pela tarefa de enfrentar por dentro as formas poéticas consolidadas. Discordo radicalmente. Embora trabalhar com essas formas, tipo o soneto alexandrino, a redondilha, a balada, a elegia, ou mesmo o hai-kai, sabe lá o que, possa vir a constituir um desafio, desbordar dessas formas também pode significar o desafio. Em suma, o âmago do desafio não se encontra em seguir ou desbordar da forma, mas em tirar tudo da alma, do fundo do poço, da vida cotidiana.

Por outro lado, devemos indagar porque alguns jovens poetas pouco estão preocupados em conhecer a tradição. Em primeiro lugar, por um motivo simples: essas coisas, via de regra, estão fora dos currículos escolares, sabemos que o ensino da língua se abastardou nos últimos anos. Mas ninguém consegue matar a poesia. A flor pode nascer no esterco ou no asfalto. Usam-se as armas que se tem. Da cegueira pode, paradoxalmente, emergir a bela poesia, mas é mais difícil. Conhecer as possibilidades da língua; conhecer, no caso da língua portuguesa, por exemplo, um Camões, só pode aumentar a capacidade de comunicação estética em poesia, jamais diminuir.

Muito da poética contemporânea que circula por aí, principalmente na internet, é meio primária. Nem se trata de alternativo, underground, quando sabemos, por exemplo, que um Allen Ginsberg, foi um puta poeta e um grande conhecedor de Dostoievski. Mais ainda: a poesia de Ginsberg é impensável sem Dostoievski. Desconhecimento nunca é bom. Saber sobre a premonição do velho de Restelo (a profecia de que Portugal, após a glória das navegações, sobreviria a uma longa época de decadência) a ou sobre a triste sina de Inês de Castro (a princesa assassinada depois feita rainha), personagens narrados em “Os lusíadas”, para além dos estudos formais, significa ir ao fundo das questões humanas. As premonições e tragédias de Camões foram fundamentais para Fernando Pessoa compor “Mensagem”.

Talvez a forma poética típica da vida contemporânea venha a ser o verso livre ou, melhor ainda, a partir da afronta produzida pelo verso livre, a disposição de servir como escravas todas as formas poéticas construídas ao longo do tempo em todas as tradições e culturas. Tudo está ao nosso dispor e pode transformar-se em poesia. Aqui encontramos o cerne do desafio. Sequer escrevo uma novidade: Baudelaire, por exemplo, já no século XIX, tanto trabalhou, com temáticas da vida urbana e da modernização capitalista, a partir das formas fixas – foi um divino sonetista – como também fez o uso polêmico da forma do poema em prosa, nos poemas de o “Spleen de Paris”. Contudo, tanto no soneto petrarquiano como no poema em prosa a temática, o conteúdo, era a vida que ele via e vivia: a Paris do segundo imperério